Série Pensadores Cristãos: Milton Schwantes
Os grandes homens de Deus acabam deixando filhos e netos. Não apenas no sentido familiar. Deixam gerações de cristãos após si. São sempre muito reprodutores de vida em Cristo.
Claro que grandes pensadores como Milton Schwantes acabam transmitindo um legado um pouco “incômodo”. Nos colocam uma pulga atrás da orelha. E dão a mim e a você amado leitor, uma opção:
Paramos para pensar. Refletimos naquilo que nos incomoda, que nos denuncia e ao mesmo tempo liberta. Não obrigatoriamente concordando. Mas sabendo que devemos ser como a flecha, que para atingir o alvo precisa ser tocada pelo vento, e mudar de direção, como previsto no cálculo do atirador (Deus, que nos lança).
Ou simplesmente, sob a desculpa de estarmos firmados, não dialogamos, não refletimos, não mudamos de opinião. Assim, não nos santificamos, também não crescemos, não expandimos a compreensão. E fechados num MUNDINHO DENOMINACIONAL, perdemos de vista o Cristo do planeta Terra, para o qual quatro paredes é uma gaiola impossível!
Para compreender um pouco do que Milton Schwantes nos deixou como herança teológica, vou tratar inicialmente de sua trajetória, em seguida um pouco de sua teologia.
Nasce o Pastor e Grande Pensador Luterano
Gaúcho de Carazinho/RS, Schwantes era o quarto filho de um casal de agricultores. Seu pai, Delfino Schwantes, e a mãe, Eugênia, nascida Graeff, moravam em Lagoa dos Três Cantos, que é do município acima. Era um conjunto de colônias de protestantes, onde praticamente não havia catolicismo.
Os Schwantes tinham sido descendentes de alemães que imigraram para o Sul do Brasil, chegando a Nova Petrópolis. Sua Mãe era do Vale do Taquari.
Seus dois irmãos mais velhos, Édio e Norberto, estudavam no Instituto Pré-Teológico (IPT), na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Ambos se tornariam pastores, assim como Milton Schwantes.
Infelizmente Schwantes perdeu o pai quando ainda tinha 5 anos de idade. Sua mãe teve que enfrentar a batalha de criar quatro filhos sem o marido. Migrou com Milton para Nova Petrópolis, meio ano depois partiram para São Leopoldo.
Dona Eugênia trabalhou muito como cozinheira do Instituto Pré-Teológico. Conseguindo assim dar uma boa educação a seus filhos. Era muito piedosa, e também deixou uma marca naquela instituição, até o fim de seus dias.
Terminando os estudos primários na escola luterana da cidade, Schwantes passaria agora sete anos no IPT.
O IPT tinha uma ótima estrutura. Os alunos tinham ênfase em línguas. Estudavam alemão, inglês, português, latim e grego. Também possuíam uma boa formação geral, que lhes preparava bem para o ensino superior.
Era natural que seguissem carreira teológica e ministerial após a conclusão da escola, no próprio IPT. Alguns eram mandados para estudar no exterior após formados. Foi o caso de Schwantes, enviado Heidelberg onde estudou entre 1971 e 1974. Lá, fez doutorado junto com o grande Hans Walter Wolff, reconhecido exegeta.
Mais tarde Milton Schwantes receberia doutorado honoris causa, pela Universidade de Malburg na Alemanha.
Pensador sim, mas prático também!
Chegado ao brasil em 74, Schwantes foi pastorear em Cunha Porã, onde passou 4 anos. Era um conjunto de comunidades e povoados. Segregados em católicos e evangélicos. Ele acompanhava 26 comunidades ao todo, onde havia mais de mil famílias.
Depois trabalhou 9 anos no Morro do Espelho, cidade de São Leopoldo, entre 1978 a 1987, na Faculdade de Teologia, isso até 1988.
Lá, foi pastor na comunidade luterana de Guarulhos e também professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.
Fez parte do caldo que dava início à famosa “Teologia da Libertação”, que teve suas raízes plantadas no Brasil com a “Teologia da Revolução”, em grande parte idealizada entre 1950 e 1960 pelo professor americano Richard Shaull, que lecionava em Campinas-SP.
Revolução era um termo muito usado na época para se levantar diversas bandeiras. Nos anos 70, a ditadura militar iria gradativamente reprimir todo movimento que levasse esse nome de revolução. Milton Schwantes se pusera como uma voz importante na teologia brasileira desde então.
Resumir sua teologia em poucos parágrafos não é tarefa simples. Mas alguns pontos fundamentais já nos expõem as virtudes de seu pensamento. O que pode nos ajudar muito.
“Suas contribuições acadêmicas e sua vasta produção teológica são um legado que não só será guardado com muito cuidado em nossas comunidades, mas principalmente, será memória viva do seu testemunho cristão comprometido com as pessoas marginalizadas, por justiça e vida digna para todas as pessoas. Suas contribuições e seu testemunho no mundo são múltiplos”, escreveu em mensagem o secretário-geral da Federação Luterana Mundial, Martin Junge.
Schwantes não foi um mero intelectual da Bíblia. Ao longo de toda a sua vida buscou coerência entre teoria e prática. Como professor em São Leopoldo, abriu mão do abono função pago pela IECLB aos professores de Teologia e da casa funcional no Morro do Espelho, indo morar num bairro entre o povo simples. “Queria conversar sobre a Bíblia com o povo simples do bairro”, testemunha o Dr. Martin Dreher. Para dar suas aulas, não ia de carro, mas de bicicleta.
A teologia é para os símplices
Muitos possuem preconceitos com relação à teologia. Não é incomum vermos hoje os seguintes dizeres:
Teologia é para discutir com intelectuais e ateus.
A igreja não precisa de teologia
Os teólogos são quase todos desviados. E por aí vai…
Podemos fazer algumas perguntas sobre Schwantes também:
Teve a teologia um papel importante para o serviço pastoral dele?
Sem a teologia ele teria uma comunicação melhor com as pessoas simples?
Ele não se tornou muito acadêmico e filosófico por ter estudado tanto?
Basta analisar de maneira rasa algumas das lutas e afirmações de Schwantes, que já vemos que a coisa não é bem assim.
Para ele, qualquer teólogo latino-americano que não se voltasse para as questões relativas aos
Ele entendeu na Bíblia que os pobres não são os coitadinhos. Os carentes da sociedade. Eles têm capacidade de reivindicar na sociedade o que lhes é de direito. Inclusive no Antigo Testamento, os profetas foram os que mais reivindicaram o direito do pobre, da viúva e do órfão. Tudo que já era previsto na Lei de Moisés.
Não são os círculos acadêmicos que devem definir todos os rumos da teologia. Sem escutar o povo da igreja não há libertação.
As pessoas símplices da comunidade são os que nos trazem à tona as reflexões teológicas mais importantes para o processo prático da Igreja. Ainda que não tragam métodos acadêmicos em seu modo de falar. Ainda que não tenham estudado grego, hebraico, Teologia Bíblica e Sistemática. São capazes de produzir teologia, e não somente serem objeto de estudo. São sujeitos pensantes.
Não é pretendido aqui detalhar muito sobre a obra de Schwantes. As poucas palavras acima já te dão motivo suficiente para aprender mais como o saudoso teólogo.
Claro que grandes pensadores como Milton Schwantes acabam transmitindo um legado um pouco “incômodo”. Nos colocam uma pulga atrás da orelha. E dão a mim e a você amado leitor, uma opção:
Paramos para pensar. Refletimos naquilo que nos incomoda, que nos denuncia e ao mesmo tempo liberta. Não obrigatoriamente concordando. Mas sabendo que devemos ser como a flecha, que para atingir o alvo precisa ser tocada pelo vento, e mudar de direção, como previsto no cálculo do atirador (Deus, que nos lança).
Ou simplesmente, sob a desculpa de estarmos firmados, não dialogamos, não refletimos, não mudamos de opinião. Assim, não nos santificamos, também não crescemos, não expandimos a compreensão. E fechados num MUNDINHO DENOMINACIONAL, perdemos de vista o Cristo do planeta Terra, para o qual quatro paredes é uma gaiola impossível!
Para compreender um pouco do que Milton Schwantes nos deixou como herança teológica, vou tratar inicialmente de sua trajetória, em seguida um pouco de sua teologia.
Nasce o Pastor e Grande Pensador Luterano
Gaúcho de Carazinho/RS, Schwantes era o quarto filho de um casal de agricultores. Seu pai, Delfino Schwantes, e a mãe, Eugênia, nascida Graeff, moravam em Lagoa dos Três Cantos, que é do município acima. Era um conjunto de colônias de protestantes, onde praticamente não havia catolicismo.
Os Schwantes tinham sido descendentes de alemães que imigraram para o Sul do Brasil, chegando a Nova Petrópolis. Sua Mãe era do Vale do Taquari.
Seus dois irmãos mais velhos, Édio e Norberto, estudavam no Instituto Pré-Teológico (IPT), na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Ambos se tornariam pastores, assim como Milton Schwantes.
Infelizmente Schwantes perdeu o pai quando ainda tinha 5 anos de idade. Sua mãe teve que enfrentar a batalha de criar quatro filhos sem o marido. Migrou com Milton para Nova Petrópolis, meio ano depois partiram para São Leopoldo.
Dona Eugênia trabalhou muito como cozinheira do Instituto Pré-Teológico. Conseguindo assim dar uma boa educação a seus filhos. Era muito piedosa, e também deixou uma marca naquela instituição, até o fim de seus dias.
Terminando os estudos primários na escola luterana da cidade, Schwantes passaria agora sete anos no IPT.
O IPT tinha uma ótima estrutura. Os alunos tinham ênfase em línguas. Estudavam alemão, inglês, português, latim e grego. Também possuíam uma boa formação geral, que lhes preparava bem para o ensino superior.
Era natural que seguissem carreira teológica e ministerial após a conclusão da escola, no próprio IPT. Alguns eram mandados para estudar no exterior após formados. Foi o caso de Schwantes, enviado Heidelberg onde estudou entre 1971 e 1974. Lá, fez doutorado junto com o grande Hans Walter Wolff, reconhecido exegeta.
Mais tarde Milton Schwantes receberia doutorado honoris causa, pela Universidade de Malburg na Alemanha.
Pensador sim, mas prático também!
Chegado ao brasil em 74, Schwantes foi pastorear em Cunha Porã, onde passou 4 anos. Era um conjunto de comunidades e povoados. Segregados em católicos e evangélicos. Ele acompanhava 26 comunidades ao todo, onde havia mais de mil famílias.
Depois trabalhou 9 anos no Morro do Espelho, cidade de São Leopoldo, entre 1978 a 1987, na Faculdade de Teologia, isso até 1988.
Lá, foi pastor na comunidade luterana de Guarulhos e também professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.
Fez parte do caldo que dava início à famosa “Teologia da Libertação”, que teve suas raízes plantadas no Brasil com a “Teologia da Revolução”, em grande parte idealizada entre 1950 e 1960 pelo professor americano Richard Shaull, que lecionava em Campinas-SP.
Revolução era um termo muito usado na época para se levantar diversas bandeiras. Nos anos 70, a ditadura militar iria gradativamente reprimir todo movimento que levasse esse nome de revolução. Milton Schwantes se pusera como uma voz importante na teologia brasileira desde então.
Resumir sua teologia em poucos parágrafos não é tarefa simples. Mas alguns pontos fundamentais já nos expõem as virtudes de seu pensamento. O que pode nos ajudar muito.
“Suas contribuições acadêmicas e sua vasta produção teológica são um legado que não só será guardado com muito cuidado em nossas comunidades, mas principalmente, será memória viva do seu testemunho cristão comprometido com as pessoas marginalizadas, por justiça e vida digna para todas as pessoas. Suas contribuições e seu testemunho no mundo são múltiplos”, escreveu em mensagem o secretário-geral da Federação Luterana Mundial, Martin Junge.
Schwantes não foi um mero intelectual da Bíblia. Ao longo de toda a sua vida buscou coerência entre teoria e prática. Como professor em São Leopoldo, abriu mão do abono função pago pela IECLB aos professores de Teologia e da casa funcional no Morro do Espelho, indo morar num bairro entre o povo simples. “Queria conversar sobre a Bíblia com o povo simples do bairro”, testemunha o Dr. Martin Dreher. Para dar suas aulas, não ia de carro, mas de bicicleta.
A teologia é para os símplices
Muitos possuem preconceitos com relação à teologia. Não é incomum vermos hoje os seguintes dizeres:
Teologia é para discutir com intelectuais e ateus.
A igreja não precisa de teologia
Os teólogos são quase todos desviados. E por aí vai…
Podemos fazer algumas perguntas sobre Schwantes também:
Teve a teologia um papel importante para o serviço pastoral dele?
Sem a teologia ele teria uma comunicação melhor com as pessoas simples?
Ele não se tornou muito acadêmico e filosófico por ter estudado tanto?
Basta analisar de maneira rasa algumas das lutas e afirmações de Schwantes, que já vemos que a coisa não é bem assim.
Para ele, qualquer teólogo latino-americano que não se voltasse para as questões relativas aos
Ele entendeu na Bíblia que os pobres não são os coitadinhos. Os carentes da sociedade. Eles têm capacidade de reivindicar na sociedade o que lhes é de direito. Inclusive no Antigo Testamento, os profetas foram os que mais reivindicaram o direito do pobre, da viúva e do órfão. Tudo que já era previsto na Lei de Moisés.
Não são os círculos acadêmicos que devem definir todos os rumos da teologia. Sem escutar o povo da igreja não há libertação.
As pessoas símplices da comunidade são os que nos trazem à tona as reflexões teológicas mais importantes para o processo prático da Igreja. Ainda que não tragam métodos acadêmicos em seu modo de falar. Ainda que não tenham estudado grego, hebraico, Teologia Bíblica e Sistemática. São capazes de produzir teologia, e não somente serem objeto de estudo. São sujeitos pensantes.
Não é pretendido aqui detalhar muito sobre a obra de Schwantes. As poucas palavras acima já te dão motivo suficiente para aprender mais como o saudoso teólogo.
Colaboração
Pr. Lucas Santos Barbosa
lucasantosbarbosa25@gmail.com
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