INTRODUÇÃO
O plano da promessa de Deus nos dois testamentos Diversidade ou unidade? A ênfase na diversidade dentro da Escritura é de tal modo generalizada hoje em dia que, para a maior parte dos estudiosos da Bíblia, qualquer outra perspectiva não condiz com o estado atual de desenvolvimento dessa disciplina. Como disse Gerhard Maier: É difícil falar de um “centro” da Escritura nos dias de hoje, porque a rubrica “centro da Escritura” vem quase sempre separada da expressão “unidade da Escritura”. Embora ambas estivessem intimamente associadas na época da Reforma, o Iluminismo as separou. Na verdade, o “centro da Escritura” praticamente substituiu a outrora perdida “unidade da Escritura”1 . Desse modo, na tentativa de voltar àqueles tempos pré-críticos2 , sobretudo ao ambiente que vigorava na Reforma, defenderei aqui um “centro” derivado do texto que estabelece, ao mesmo tempo, um paralelo com a tese da “unidade da Bíblia”. Creio que um centro que privilegie a Escritura e a unidade que lhe faz companhia encontram forte respaldo especialmente nos autores do Novo Testamento. Eles ensinaram que a doutrina do Messias, o Ungido de Deus, fora preservada como testemunho da “promessa” (ou plano da promessa) feita por Deus. Contudo, ela surge primeiramente em todas as partes do Antigo Testamento, embora sua presença ali se dê sob os mais diferentes nomes, ainda que sinônimos, como “palavra”, “descanso”, “bênção” etc.3 Pode-se defender essa tese com base em uma lista de dez generalizações tiradas da Escritura sobre o plano da promessa de Deus. Antes de mais nada, porém, vamos tentar defi nir o plano unifi cador manifesto na Escritura. 1. Gerhard Maier, Biblical Hermeneutics, trad. Robert W. Yarbrough. Wheaton: Crossway, 1994, p. 202. 2. “Tempos pré-críticos” não é expressão muito feliz, mas é quase sempre usada atualmente em referência à interpretação da Escritura antes da ascensão da tese histórico-crítica de abordagem ao texto bíblico surgida no século XVIII. 3. Faz muitos anos que vivo sob o impacto da tese de Willis J. Beecher, Th e Prophets and the Promise (1905). Reimp. Grand Rapids: Baker, 1975. O que se segue é uma reformulação muito próxima da perspectiva por ele defendida há mais de um século nas célebres Palestras Stone, em Princeton. [ 14 ] O plano da promessa de Deus Defi nição do plano da promessa de Deus Ao enfatizar um plano único da promessa de Deus como centro teológico de toda a Bíblia, em vez de listar inúmeras predições aleatórias e dispersas (ou mesmo a ausência de uma mente ordenadora por trás da revelação), a teologia bíblica se distingue da tarefa e dos resultados da disciplina conhecida como teologia sistemática. A teologia sistemática sempre organizou sua perspectiva em torno de tópicos e de temas como Deus, humanidade, pecado, Cristo, salvação, a igreja e as últimas coisas. Já a teologia bíblica, com muita frequência, é uma disciplina em busca de uma missão e de uma estrutura, caindo muitas vezes nas mesmas trilhas tópicas e estruturais já percorridas pela teologia sistemática, embora a critique severamente e se coloque acima dela com o argumento de que a teologia sistemática impôs ao seu material um crivo externo (tomado da fi losofi a ou de outra fonte semelhante). Desde o início, a teologia bíblica sempre se caracterizou por um tom fortemente diacrônico que insiste em rastrear o desenvolvimento histórico da doutrina conforme ela se apresenta cronologicamente na história de Israel e da igreja. Portanto, embora tivesse de ser fi el às Escrituras na forma e no método, bem como na substância, tinha de apresentar-se na ordem na qual Deus manifestou sua revelação ao longo dos séculos ou décadas. Era preciso que fosse uma teologia bíblica, e não uma compilação de teologias bíblicas (com base em outro pressuposto segundo o qual o cânon não teria unidade ou centro algum). A utilização do substantivo singular em teologia bíblica era sinal de que havia um centro organizador que podia ser descoberto, de que o cânon todo expressava a unidade de um propósito divino único e unifi cado. Essa unidade tinha de ser posta a nu antes que se explorassem o plano e o propósito de Deus conforme revelados nos livros e nas seções das Escrituras. A melhor proposta para tal unidade encontra-se exatamente onde as Escrituras indicaram por meio de reiteradas referências. Creio que o candidato mais adequado à unidade ou ao centro da manifestação de Deus é o “plano da promessa” de Deus conforme revelado nas reiteradas referências encontradas em toda a Bíblia. O plano da promessa da teologia bíblica se preocupa com uma palavra divina de promessa de alcance amplo, e não com suas numerosas predições (conforme pensa muita gente quando ouve a palavra “promessa”), rastreando o desenvolvimento dessa declaração de Deus nas grandes passagens pedagógicas de cada era da revelação divina. Em geral, na teologia dogmática ou sistemática, os textos usados para respaldar uma doutrina qualquer são versículos esparsos (em vez da grande “cátedra”, capítulos pedagógicos ou perícopes) distribuídos por toda a Bíblia. Enquanto a teologia sistemática, de modo geral, separa a predição da promessa, omitindo referências ao aspecto ameaçador da promessa e aos juízos de Deus, bem como aos meios históricos utilizados por Deus para manter viva [ 15 ] O plano da promessa de Deus nos dois testamentos sua palavra e, em última análise, cumpri-la, a teologia bíblica insiste em manter unidos tanto os aspectos ameaçadores quanto as predições de esperança como facetas diferentes do mesmo plano da promessa. Ela investiga também os meios históricos intermediários ou elos pelos quais essa palavra foi preservada em cumprimentos parciais até que o cumprimento fi nal e completo se manifestasse em Cristo. Portanto, o plano da promessa não se resumiu apenas a uma palavra preditiva que fi cou inerte e em forma de palavra até ser fi nalmente cumprida em seu ponto fi nal. Tratava-se, isto sim, de uma palavra mantida ao longo dos séculos em uma série contínua de cumprimentos históricos que serviram de sinal ou de adiantamento dado por uma palavra que ainda apontava para seu cumprimento último ou fi nal. Willis J. Beecher, nas Palestras Stone de 1904, em Princeton, defi niu a promessa da promessa a Abraão e, por meio dele, a toda a humanidade; uma promessa cumprida na eternidade e que se cumpria na história de Israel; ela cumpriu-se de forma especial em Jesus Cristo, sendo ele o principal personagem da história de Israel”4 . De igual modo, a promessa divina foi feita aos patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, em Gênesis. Ela prosseguiu e foi renovada na narrativa do Êxodo, enfatizando que a nova nação de Israel era fi lha de Javé e seu povo, e que ela se tornaria um reino de sacerdotes e nação santa em benefício de toda a humanidade. Todavia, dessa “semente” sairia o Messias de Deus para o mundo todo. A mesma promessa é reafi rmada e renovada com Davi ao ser-lhe dito que a ele e à sua “semente” seriam dados um “trono”, uma “dinastia” e um “reino” (2Sm 7.16) que serviriam de “lei/contrato para toda a humanidade” (2Sm 7.19, tradução do autor). Dos tempos de Davi em diante, uma corrente de profetas- -escritores compôs os Salmos e os chamados livros históricos (um nome melhor seria “Profetas Anteriores”), bem com os livros dos “Profetas Posteriores”. Eles também insistiram em recorrer ao plano da promessa que Deus dera aos patriarcas e a Davi e fi zeram dele igualmente coração e alma da mensagem que deixaram para os seus dias e também para os nossos. Não é de espantar, portanto, que os autores do Novo Testamento tenham entendido que o tema da promessa não só fosse o centro unifi cador que lhes permitia compreender o Antigo Testamento, mas também o meio através do qual era possível acompanhar o avanço e o desenvolvimento contínuos da metanarrativa da obra futura de Deus. Meu único acréscimo à defi nição de Beecher seria transpô-la de volta aos tempos da promessa edênica feita a Eva de que sua “semente” esmagaria a cabeça da serpente, o mal em pessoa. Minha defi nição pessoal do plano da promessa de Deus é a seguinte: 4. Beecher, Prophets, p. 178. [ 16 ] O plano da promessa de Deus O plano da promessa é a palavra declarada por Deus, primeiramente a Eva e depois ao longo de toda a história, principalmente aos patriarcas e à linhagem de Davi, de que Deus estaria continuamente, por meio de sua pessoa e em seus feitos e obras (em Israel e através de Israel e, mais tarde, na igreja), realizando seu plano redentor como meio de manter aquela palavra prometida viva para Israel e, dessa forma, para todos os que viessem a crer subsequentemente. Todos os que pertenciam àquela semente da promessa foram chamados a ser luz de todas as nações, para que todas as famílias da terra chegassem à fé e à nova vida pelo Messias. Dez características do plano da promessa de Deus O plano da promessa pode ser descrito com dez características distintas. São elas: 1. A doutrina do Messias Prometido aparece por toda a Bíblia e não apenas em algumas poucas passagens isoladas ou escolhidas conforme o Esquema de Cumprimento da Profecia. Nosso Senhor partiu do pressuposto de que os leitores do Novo Testamento sabiam quem ele era e o que haveria de lhe acontecer em Jerusalém. Por exemplo, os dois discípulos que Jesus encontrou no caminho de Emaús no primeiro domingo de Páscoa foram duramente reprimidos por nosso Senhor por não compreenderem a mensagem do Antigo Testamento e o signifi cado do que fora dito a respeito do futuro Messias: Depois lhes disse: “São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco: Era necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” (Lc 24.44) “Ó tolos, que demorais a crer no coração em tudo o que os profetas disseram! Acaso o Cristo não tinha de sofrer essas coisas e entrar na sua glória?” E, começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a seu respeito em todas as Escrituras. (Lc 24.25-27) O que o Antigo Testamento continha apenas sob a forma de palavra de promessa era precisamente o que nosso Senhor supunha que pessoas leigas e comuns como Cleopas e seu companheiro soubessem, apesar de sua tristeza evidente em razão do que imaginavam ser uma reviravolta trágica que culminara com a crucifi xão de Jesus. 2. O ensino messiânico do Antigo Testamento era considerado o desenvolvimento de uma única promessa (gr. epangelia), repetida e desvendada ao longo dos séculos por meio de numerosas especifi cações e em múltiplas formas, mas sempre fi el ao mesmo núcleo essencial. Trata-se de um artigo de fé tão fundamental que o apóstolo Paulo, quando levado a julgamento, e correndo risco de vida, sintetizou toda a sua vida e ministério com as seguintes palavras: [ 17 ] O plano da promessa de Deus nos dois testamentos Agora estou aqui para ser julgado por causa da esperança da promessa feita por Deus a nossos pais. As nossas doze tribos esperam alcançar essa promessa, servindo a Deus com fervor noite e dia [...] que Deus ressuscite os mortos (At 26.6-7a, 8b, grifo do autor). O apelo de Paulo ao rei Agripa não se baseava em predições diversas espalhadas pelas Escrituras, mas “na promessa” (isto é, em uma promessa específi ca, conforme permite vislumbrar o artigo defi nido “a” que aparece aqui contraído com a preposição “em”) feita por Deus há muito tempo aos ancestrais da nação (Abraão, Isaque e Jacó e Davi) e “na promessa” feita por ele às “doze tribos”. Conforme diz Beecher: “Ele não se refere ao assunto de que está tratando como predição, e sim promessa; não promessas, mas promessa; não uma promessa, mas a promessa. A palavra está no singular e tem sentido defi nido”. A totalidade da verdade messiânica essencial de que ele tem conhecimento, o apóstolo resume nesta fórmula: “a promessa de Deus feita a nossos pais”5 . Mais de quarenta passagens do Novo Testamento fazem referência à palavra “promessa”6 , que tem como característica mais central e proeminente a revelação sobre o Messias. Pode-se agrupar em torno desse motivo central todo o ensino do Novo Testamento (e do Antigo Testamento), de acordo com os escritores do cânon bíblico. 3. Os escritores do Novo Testamento igualam essa promessa única e específi ca à promessa feita a Abraão quando Deus lhe disse que saísse de Ur dos caldeus. Em vez de tratar essa promessa defi nida como se tivesse sido dada recentemente nos tempos neotestamentários, o autor do livro de Hebreus a vincula à transação feita por Deus com Abraão no passado remoto: Quando Deus fez a promessa a Abraão, jurou por si mesmo [...] e disse: “Por certo te abençoarei e te multiplicarei grandemente.” (Hb 6.13-14, grifo do autor). Deus, querendo mostrar mais claramente aos herdeiros da promessa a imutabilidade de seu propósito, interveio com juramento. (Hb 6.17; cf. Gn 22.17, grifo do autor). [...] Isaque e Jacó [...] herdeiros com ele da mesma promessa. (Hb 1.9, grifo do autor). E todos eles, embora recebendo bom testemunho pela fé, não obtiveram a promessa [...] para que, sem nós, eles não fossem aperfeiçoados. (Hb 11.39-40, grifo do autor). 5. Beecher, Prophets, p. 180. 6. Ver, no Apêndice B, a tabela de frequência e distribuição de uso do termo epangelia. [ 18 ] O plano da promessa de Deus O apóstolo Paulo utiliza o mesmo argumento em Romanos: Porque não foi pela lei que Abraão, ou sua descendência, recebeu a promessa de que ele havia de ser herdeiro do mundo; ao contrário, foi pela justiça da fé. Pois, se os que vivem pela lei são herdeiros, esvazia-se a fé, e anula-se a promessa [...] Contudo, diante da promessa de Deus, [Abraão] não vacilou em incredulidade; pelo contrário, foi fortalecido na fé, dando glória a Deus. (Rm 4.13–14,20, grifo do autor). 4. Embora os escritores do Novo Testamento falem, por vezes, de promessas, usando o plural da palavra, a forma como o fazem não fragiliza a tese de uma promessa única defi nida nas Escrituras. Naqueles casos raros em que os autores do Novo Testamento recorrem ao plural “promessas”, eles o fazem com o propósito de indicar que a promessa única comporta especifi cações diversas. A tendência contemporânea à diversidade na Escritura serve apenas para deixar clara a infl uência da modernidade e da pós-modernidade em detrimento de uma investigação que revele, de fato, o sistema de organização do texto. Optar pela diversidade signifi ca uma maior adesão à era atual (que valoriza a diversidade e o pluralismo) do que à era da Bíblia, porque ela insiste o tempo todo em refl etir em seus textos a mente singular e a vontade única de Deus, e não do agrupamento de autores humanos usados pelo seu Espírito. Ressalte-se que, apesar de todas essas várias especifi cações a que os autores se referem como “promessas”, sua existência se dá no âmbito mais amplo da promessa única de Deus, e não no âmbito de fl uxos extrínsecos de raciocínios paralelos ou antagônicos, conforme mostram estes exemplos de Romanos: Eles são israelitas, e deles são a adoção, a glória, as alianças, a promulga- ção da lei, o culto e as promessas. (Rm 9.4, grifo do autor). Afi rmo, pois, que Cristo se tornou servo da circuncisão, por causa da fi delidade de Deus, para confi rmar as promessas feitas aos patriarcas; para que os gentios glorifi quem a Deus pela sua misericórdia. (Rm 15.8-9, grifo do autor). Uma breve amostra de algumas das várias especifi cações compreende a promessa do Espírito Santo, a ressurreição do Messias, a herança da terra de Canaã, a missão aos gentios, a vinda do Messias (em seu primeiro e segundo adventos), e assim por diante. Examinaremos posteriormente vários outros lugares em que ocorrem múltiplas especifi cações. Os exemplos dados, porém, são sufi cientes para nossa tese de que a promessa única consiste em uma série de temas correlacionados no âmbito de um mesmo plano. 5. Para os escritores do Novo Testamento, essa promessa única e defi nida constituída de numerosas especifi cações é o tema de ambos os testamentos. Se a Bíblia [ 19 ] O plano da promessa de Deus nos dois testamentos tem, de fato, um centro, se há nela uma unidade, deve-se buscá-la, sobretudo, nas declarações dos autores do Novo Testamento, que a situam de modo especial sob o rótulo de “promessa”. Eles recuam no tempo e acompanham o desenvolvimento desse tema messiânico desde Eva, Abraão e seus descendentes, entre eles Davi e sua linhagem, até o século I d.C. Ninguém menos do que o diácono Estêvão refez essa trajetória perante o Sinédrio: Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, quando ele estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e disse-lhe: Sai da tua terra, do meio dos teus parentes, e vai para a terra que eu te mostrarei [...] Enquanto se aproximava o tempo da promessa que Deus fi zera a Abraão, o povo crescia e se multiplicava no Egito. (At 7.2-3, 17, grifo do autor). Embora o Antigo Testamento não tenha um equivalente verbal exato do termo “promessa”, o mesmo conceito aparece em uma constelação de outros termos. A expressão mais antiga da ideia da promessa é dada pela palavra “bênção” (barakah), tantas vezes repetida, recorrente com muita frequência em Gênesis 1—11 (por exemplo, Gn 1.22, 28; 2.3; 5.2; 9.1, 26). O Antigo Testamento, porém, utiliza outro termo além de “bênção”. Foster McCurley, por exemplo, contou mais de trinta situações em que o verbo dibber (geralmente traduzido como “falar”) poderia ser mais bem traduzido como “prometer”.7 Somem-se a esses dois termos o “penhor” divino, seu “juramento” e “descanso”, bem como uma infi nidade de termos e de metáforas que apontam para seu privilégio messiânico, tais como “Semente”, “Rebento”, “Servo”, “Pedra”, “Raiz”, “Leão” — e a lista continua. 6. A promessa feita a Abraão é tratada como evento parcialmente cumprido nos acontecimentos do êxodo e evento ainda a se cumprir integralmente no futuro distante. Foi isso o que Estêvão quis sublinhar em Atos 7.17, uma vez que Deus estava cumprindo o plano feito a Abraão e nos dias do êxodo, e que mais tarde seria chamado de “a promessa”. Paulo se valeu do mesmo método de interpretação, com a diferença de que começou pelo êxodo e se estendeu até os dias do rei Saul e do rei Davi: Depois que tirou Saul, deu-lhes Davi como rei [...] Da descendência deste, conforme a promessa, Deus trouxe a Israel o Salvador, Jesus. (At 13.22, grifo do autor). 7. Foster R. McCurley Jr., “Th e Christian and the Old Testament Promise”, Lutheran Quarterly 22 (1970): 401-410; esp. 402, n. 2. Entre os vários itens prometidos mediante o uso do verbo “falar” ou “prometer”, temos: (1) a terra (Êx 12.25; Dt 9.28; 12.20; 19.8; 27.3; Js 23.5,10); (2) bênção (Dt 1.1; 15.6); (3) multiplicação do povo de Israel (Dt 6.3; 26.10); (4) descanso (Js 22.4; 1Rs 8.56); (5) todas essas boas coisas (Js 23.15); e (6) uma dinastia davídica, um reino e um trono (2Sm 7.28; 1Rs 2.24; 8.20,24-25; 1Cr 17.26; 2Cr 6.15-16; Jr 33.14) e o substantivo hebraico dabar, “palavra”, “promessa” (1Rs 8.56; Sl 105.42). [ 20 ] O plano da promessa de Deus Como esse plano de Deus era entendido como um processo contínuo que percorria a história toda, era necessário destacar cada um dos eventos do desdobrar da história em direção ao Messias, cumprindo-se, ao mesmo tempo, partes da promessa que seguia adiante rumo à sua resolução e cumprimento completos. É por isso que os eventos relacionados ao nascimento de João Batista e de Jesus são tratados tanto como cumprimento do plano da promessa quanto como indicadores futuros do que haveria de sobrevir. O pai de João, Zacarias, viu no advento de uma “salvação poderosa na descendência de seu servo Davi” (i.e., o Messias, Lc 1.69) mais um episódio em que se cumpria o “juramento que [Deus] fez a Abraão, nosso pai” (Lc 1.73). Portanto, a promessa passou por Abraão e Davi e alcançou, nos primórdios da era cristã, a João Batista, precursor do nosso Senhor, e ao próprio Jesus. 7. Os escritores do Novo Testamento não somente dizem que o plano da promessa de Deus permeia todo o Antigo Testamento, como adotam também a fraseologia veterotestamentária como parte da maneira como expressam a revelação de Deus a eles. Outras expressões como “o dia do Senhor”, “os últimos dias”, “o Servo do Senhor”, “meu Filho”, “meu Primogênito”, “meu Mensageiro”, “meu Santo”, o “reino de Deus” e o “Messias” foram paulatinamente acrescentados ao Antigo Testamento tornando-se praticamente rotineiros no vocabulário empregado pelo Novo Testamento. 8. Os autores do Novo Testamento ensinam que a promessa de Deus tem efeito eterno e irrevogável. Não obstante o “endurecimento [que] veio em parte” sobre Israel (Rm 11.25), ainda assim “os dons e os chamados de Deus são irrevogá- veis” (Rm 1.29). Paulo era contundente a esse respeito: Irmãos, eu vos falarei em termos humanos. Embora feito por um homem, ninguém anula um testamento já validado, nem lhe acrescenta coisa alguma. Assim as promessas foram feitas a Abraão e a seu descendente. A Escritura não diz: E a seus descendentes, como se falasse de muitos, mas como quem se refere a um só: E a teu descendente, que é Cristo. E eu afi rmo: A lei, que veio quatrocentos e trinta anos mais tarde, não anula o testamento antes validado por Deus, cancelando a promessa. Pois, se a herança provém da lei, já não provém mais da promessa. Mas foi pela promessa que Deus a concedeu gratuitamente a Abraão. (Gl 3.15-18, grifo do autor). Não menos categórica é a declaração do autor de Hebreus: Quando Deus fez a promessa a Abraão, jurou por si mesmo, visto não ter outro maior por quem jurar [...] Assim Deus, querendo mostrar mais claramente aos herdeiros da promessa a imutabilidade de seu propósito, interveio com juramento, para que nós [as gerações posteriores a Abraão e a seus herdeiros], que nos refugiamos no acesso à esperança proposta,
O plano da promessa de Deus nos dois testamentos Diversidade ou unidade? A ênfase na diversidade dentro da Escritura é de tal modo generalizada hoje em dia que, para a maior parte dos estudiosos da Bíblia, qualquer outra perspectiva não condiz com o estado atual de desenvolvimento dessa disciplina. Como disse Gerhard Maier: É difícil falar de um “centro” da Escritura nos dias de hoje, porque a rubrica “centro da Escritura” vem quase sempre separada da expressão “unidade da Escritura”. Embora ambas estivessem intimamente associadas na época da Reforma, o Iluminismo as separou. Na verdade, o “centro da Escritura” praticamente substituiu a outrora perdida “unidade da Escritura”1 . Desse modo, na tentativa de voltar àqueles tempos pré-críticos2 , sobretudo ao ambiente que vigorava na Reforma, defenderei aqui um “centro” derivado do texto que estabelece, ao mesmo tempo, um paralelo com a tese da “unidade da Bíblia”. Creio que um centro que privilegie a Escritura e a unidade que lhe faz companhia encontram forte respaldo especialmente nos autores do Novo Testamento. Eles ensinaram que a doutrina do Messias, o Ungido de Deus, fora preservada como testemunho da “promessa” (ou plano da promessa) feita por Deus. Contudo, ela surge primeiramente em todas as partes do Antigo Testamento, embora sua presença ali se dê sob os mais diferentes nomes, ainda que sinônimos, como “palavra”, “descanso”, “bênção” etc.3 Pode-se defender essa tese com base em uma lista de dez generalizações tiradas da Escritura sobre o plano da promessa de Deus. Antes de mais nada, porém, vamos tentar defi nir o plano unifi cador manifesto na Escritura. 1. Gerhard Maier, Biblical Hermeneutics, trad. Robert W. Yarbrough. Wheaton: Crossway, 1994, p. 202. 2. “Tempos pré-críticos” não é expressão muito feliz, mas é quase sempre usada atualmente em referência à interpretação da Escritura antes da ascensão da tese histórico-crítica de abordagem ao texto bíblico surgida no século XVIII. 3. Faz muitos anos que vivo sob o impacto da tese de Willis J. Beecher, Th e Prophets and the Promise (1905). Reimp. Grand Rapids: Baker, 1975. O que se segue é uma reformulação muito próxima da perspectiva por ele defendida há mais de um século nas célebres Palestras Stone, em Princeton. [ 14 ] O plano da promessa de Deus Defi nição do plano da promessa de Deus Ao enfatizar um plano único da promessa de Deus como centro teológico de toda a Bíblia, em vez de listar inúmeras predições aleatórias e dispersas (ou mesmo a ausência de uma mente ordenadora por trás da revelação), a teologia bíblica se distingue da tarefa e dos resultados da disciplina conhecida como teologia sistemática. A teologia sistemática sempre organizou sua perspectiva em torno de tópicos e de temas como Deus, humanidade, pecado, Cristo, salvação, a igreja e as últimas coisas. Já a teologia bíblica, com muita frequência, é uma disciplina em busca de uma missão e de uma estrutura, caindo muitas vezes nas mesmas trilhas tópicas e estruturais já percorridas pela teologia sistemática, embora a critique severamente e se coloque acima dela com o argumento de que a teologia sistemática impôs ao seu material um crivo externo (tomado da fi losofi a ou de outra fonte semelhante). Desde o início, a teologia bíblica sempre se caracterizou por um tom fortemente diacrônico que insiste em rastrear o desenvolvimento histórico da doutrina conforme ela se apresenta cronologicamente na história de Israel e da igreja. Portanto, embora tivesse de ser fi el às Escrituras na forma e no método, bem como na substância, tinha de apresentar-se na ordem na qual Deus manifestou sua revelação ao longo dos séculos ou décadas. Era preciso que fosse uma teologia bíblica, e não uma compilação de teologias bíblicas (com base em outro pressuposto segundo o qual o cânon não teria unidade ou centro algum). A utilização do substantivo singular em teologia bíblica era sinal de que havia um centro organizador que podia ser descoberto, de que o cânon todo expressava a unidade de um propósito divino único e unifi cado. Essa unidade tinha de ser posta a nu antes que se explorassem o plano e o propósito de Deus conforme revelados nos livros e nas seções das Escrituras. A melhor proposta para tal unidade encontra-se exatamente onde as Escrituras indicaram por meio de reiteradas referências. Creio que o candidato mais adequado à unidade ou ao centro da manifestação de Deus é o “plano da promessa” de Deus conforme revelado nas reiteradas referências encontradas em toda a Bíblia. O plano da promessa da teologia bíblica se preocupa com uma palavra divina de promessa de alcance amplo, e não com suas numerosas predições (conforme pensa muita gente quando ouve a palavra “promessa”), rastreando o desenvolvimento dessa declaração de Deus nas grandes passagens pedagógicas de cada era da revelação divina. Em geral, na teologia dogmática ou sistemática, os textos usados para respaldar uma doutrina qualquer são versículos esparsos (em vez da grande “cátedra”, capítulos pedagógicos ou perícopes) distribuídos por toda a Bíblia. Enquanto a teologia sistemática, de modo geral, separa a predição da promessa, omitindo referências ao aspecto ameaçador da promessa e aos juízos de Deus, bem como aos meios históricos utilizados por Deus para manter viva [ 15 ] O plano da promessa de Deus nos dois testamentos sua palavra e, em última análise, cumpri-la, a teologia bíblica insiste em manter unidos tanto os aspectos ameaçadores quanto as predições de esperança como facetas diferentes do mesmo plano da promessa. Ela investiga também os meios históricos intermediários ou elos pelos quais essa palavra foi preservada em cumprimentos parciais até que o cumprimento fi nal e completo se manifestasse em Cristo. Portanto, o plano da promessa não se resumiu apenas a uma palavra preditiva que fi cou inerte e em forma de palavra até ser fi nalmente cumprida em seu ponto fi nal. Tratava-se, isto sim, de uma palavra mantida ao longo dos séculos em uma série contínua de cumprimentos históricos que serviram de sinal ou de adiantamento dado por uma palavra que ainda apontava para seu cumprimento último ou fi nal. Willis J. Beecher, nas Palestras Stone de 1904, em Princeton, defi niu a promessa da promessa a Abraão e, por meio dele, a toda a humanidade; uma promessa cumprida na eternidade e que se cumpria na história de Israel; ela cumpriu-se de forma especial em Jesus Cristo, sendo ele o principal personagem da história de Israel”4 . De igual modo, a promessa divina foi feita aos patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, em Gênesis. Ela prosseguiu e foi renovada na narrativa do Êxodo, enfatizando que a nova nação de Israel era fi lha de Javé e seu povo, e que ela se tornaria um reino de sacerdotes e nação santa em benefício de toda a humanidade. Todavia, dessa “semente” sairia o Messias de Deus para o mundo todo. A mesma promessa é reafi rmada e renovada com Davi ao ser-lhe dito que a ele e à sua “semente” seriam dados um “trono”, uma “dinastia” e um “reino” (2Sm 7.16) que serviriam de “lei/contrato para toda a humanidade” (2Sm 7.19, tradução do autor). Dos tempos de Davi em diante, uma corrente de profetas- -escritores compôs os Salmos e os chamados livros históricos (um nome melhor seria “Profetas Anteriores”), bem com os livros dos “Profetas Posteriores”. Eles também insistiram em recorrer ao plano da promessa que Deus dera aos patriarcas e a Davi e fi zeram dele igualmente coração e alma da mensagem que deixaram para os seus dias e também para os nossos. Não é de espantar, portanto, que os autores do Novo Testamento tenham entendido que o tema da promessa não só fosse o centro unifi cador que lhes permitia compreender o Antigo Testamento, mas também o meio através do qual era possível acompanhar o avanço e o desenvolvimento contínuos da metanarrativa da obra futura de Deus. Meu único acréscimo à defi nição de Beecher seria transpô-la de volta aos tempos da promessa edênica feita a Eva de que sua “semente” esmagaria a cabeça da serpente, o mal em pessoa. Minha defi nição pessoal do plano da promessa de Deus é a seguinte: 4. Beecher, Prophets, p. 178. [ 16 ] O plano da promessa de Deus O plano da promessa é a palavra declarada por Deus, primeiramente a Eva e depois ao longo de toda a história, principalmente aos patriarcas e à linhagem de Davi, de que Deus estaria continuamente, por meio de sua pessoa e em seus feitos e obras (em Israel e através de Israel e, mais tarde, na igreja), realizando seu plano redentor como meio de manter aquela palavra prometida viva para Israel e, dessa forma, para todos os que viessem a crer subsequentemente. Todos os que pertenciam àquela semente da promessa foram chamados a ser luz de todas as nações, para que todas as famílias da terra chegassem à fé e à nova vida pelo Messias. Dez características do plano da promessa de Deus O plano da promessa pode ser descrito com dez características distintas. São elas: 1. A doutrina do Messias Prometido aparece por toda a Bíblia e não apenas em algumas poucas passagens isoladas ou escolhidas conforme o Esquema de Cumprimento da Profecia. Nosso Senhor partiu do pressuposto de que os leitores do Novo Testamento sabiam quem ele era e o que haveria de lhe acontecer em Jerusalém. Por exemplo, os dois discípulos que Jesus encontrou no caminho de Emaús no primeiro domingo de Páscoa foram duramente reprimidos por nosso Senhor por não compreenderem a mensagem do Antigo Testamento e o signifi cado do que fora dito a respeito do futuro Messias: Depois lhes disse: “São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco: Era necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” (Lc 24.44) “Ó tolos, que demorais a crer no coração em tudo o que os profetas disseram! Acaso o Cristo não tinha de sofrer essas coisas e entrar na sua glória?” E, começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a seu respeito em todas as Escrituras. (Lc 24.25-27) O que o Antigo Testamento continha apenas sob a forma de palavra de promessa era precisamente o que nosso Senhor supunha que pessoas leigas e comuns como Cleopas e seu companheiro soubessem, apesar de sua tristeza evidente em razão do que imaginavam ser uma reviravolta trágica que culminara com a crucifi xão de Jesus. 2. O ensino messiânico do Antigo Testamento era considerado o desenvolvimento de uma única promessa (gr. epangelia), repetida e desvendada ao longo dos séculos por meio de numerosas especifi cações e em múltiplas formas, mas sempre fi el ao mesmo núcleo essencial. Trata-se de um artigo de fé tão fundamental que o apóstolo Paulo, quando levado a julgamento, e correndo risco de vida, sintetizou toda a sua vida e ministério com as seguintes palavras: [ 17 ] O plano da promessa de Deus nos dois testamentos Agora estou aqui para ser julgado por causa da esperança da promessa feita por Deus a nossos pais. As nossas doze tribos esperam alcançar essa promessa, servindo a Deus com fervor noite e dia [...] que Deus ressuscite os mortos (At 26.6-7a, 8b, grifo do autor). O apelo de Paulo ao rei Agripa não se baseava em predições diversas espalhadas pelas Escrituras, mas “na promessa” (isto é, em uma promessa específi ca, conforme permite vislumbrar o artigo defi nido “a” que aparece aqui contraído com a preposição “em”) feita por Deus há muito tempo aos ancestrais da nação (Abraão, Isaque e Jacó e Davi) e “na promessa” feita por ele às “doze tribos”. Conforme diz Beecher: “Ele não se refere ao assunto de que está tratando como predição, e sim promessa; não promessas, mas promessa; não uma promessa, mas a promessa. A palavra está no singular e tem sentido defi nido”. A totalidade da verdade messiânica essencial de que ele tem conhecimento, o apóstolo resume nesta fórmula: “a promessa de Deus feita a nossos pais”5 . Mais de quarenta passagens do Novo Testamento fazem referência à palavra “promessa”6 , que tem como característica mais central e proeminente a revelação sobre o Messias. Pode-se agrupar em torno desse motivo central todo o ensino do Novo Testamento (e do Antigo Testamento), de acordo com os escritores do cânon bíblico. 3. Os escritores do Novo Testamento igualam essa promessa única e específi ca à promessa feita a Abraão quando Deus lhe disse que saísse de Ur dos caldeus. Em vez de tratar essa promessa defi nida como se tivesse sido dada recentemente nos tempos neotestamentários, o autor do livro de Hebreus a vincula à transação feita por Deus com Abraão no passado remoto: Quando Deus fez a promessa a Abraão, jurou por si mesmo [...] e disse: “Por certo te abençoarei e te multiplicarei grandemente.” (Hb 6.13-14, grifo do autor). Deus, querendo mostrar mais claramente aos herdeiros da promessa a imutabilidade de seu propósito, interveio com juramento. (Hb 6.17; cf. Gn 22.17, grifo do autor). [...] Isaque e Jacó [...] herdeiros com ele da mesma promessa. (Hb 1.9, grifo do autor). E todos eles, embora recebendo bom testemunho pela fé, não obtiveram a promessa [...] para que, sem nós, eles não fossem aperfeiçoados. (Hb 11.39-40, grifo do autor). 5. Beecher, Prophets, p. 180. 6. Ver, no Apêndice B, a tabela de frequência e distribuição de uso do termo epangelia. [ 18 ] O plano da promessa de Deus O apóstolo Paulo utiliza o mesmo argumento em Romanos: Porque não foi pela lei que Abraão, ou sua descendência, recebeu a promessa de que ele havia de ser herdeiro do mundo; ao contrário, foi pela justiça da fé. Pois, se os que vivem pela lei são herdeiros, esvazia-se a fé, e anula-se a promessa [...] Contudo, diante da promessa de Deus, [Abraão] não vacilou em incredulidade; pelo contrário, foi fortalecido na fé, dando glória a Deus. (Rm 4.13–14,20, grifo do autor). 4. Embora os escritores do Novo Testamento falem, por vezes, de promessas, usando o plural da palavra, a forma como o fazem não fragiliza a tese de uma promessa única defi nida nas Escrituras. Naqueles casos raros em que os autores do Novo Testamento recorrem ao plural “promessas”, eles o fazem com o propósito de indicar que a promessa única comporta especifi cações diversas. A tendência contemporânea à diversidade na Escritura serve apenas para deixar clara a infl uência da modernidade e da pós-modernidade em detrimento de uma investigação que revele, de fato, o sistema de organização do texto. Optar pela diversidade signifi ca uma maior adesão à era atual (que valoriza a diversidade e o pluralismo) do que à era da Bíblia, porque ela insiste o tempo todo em refl etir em seus textos a mente singular e a vontade única de Deus, e não do agrupamento de autores humanos usados pelo seu Espírito. Ressalte-se que, apesar de todas essas várias especifi cações a que os autores se referem como “promessas”, sua existência se dá no âmbito mais amplo da promessa única de Deus, e não no âmbito de fl uxos extrínsecos de raciocínios paralelos ou antagônicos, conforme mostram estes exemplos de Romanos: Eles são israelitas, e deles são a adoção, a glória, as alianças, a promulga- ção da lei, o culto e as promessas. (Rm 9.4, grifo do autor). Afi rmo, pois, que Cristo se tornou servo da circuncisão, por causa da fi delidade de Deus, para confi rmar as promessas feitas aos patriarcas; para que os gentios glorifi quem a Deus pela sua misericórdia. (Rm 15.8-9, grifo do autor). Uma breve amostra de algumas das várias especifi cações compreende a promessa do Espírito Santo, a ressurreição do Messias, a herança da terra de Canaã, a missão aos gentios, a vinda do Messias (em seu primeiro e segundo adventos), e assim por diante. Examinaremos posteriormente vários outros lugares em que ocorrem múltiplas especifi cações. Os exemplos dados, porém, são sufi cientes para nossa tese de que a promessa única consiste em uma série de temas correlacionados no âmbito de um mesmo plano. 5. Para os escritores do Novo Testamento, essa promessa única e defi nida constituída de numerosas especifi cações é o tema de ambos os testamentos. Se a Bíblia [ 19 ] O plano da promessa de Deus nos dois testamentos tem, de fato, um centro, se há nela uma unidade, deve-se buscá-la, sobretudo, nas declarações dos autores do Novo Testamento, que a situam de modo especial sob o rótulo de “promessa”. Eles recuam no tempo e acompanham o desenvolvimento desse tema messiânico desde Eva, Abraão e seus descendentes, entre eles Davi e sua linhagem, até o século I d.C. Ninguém menos do que o diácono Estêvão refez essa trajetória perante o Sinédrio: Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, quando ele estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e disse-lhe: Sai da tua terra, do meio dos teus parentes, e vai para a terra que eu te mostrarei [...] Enquanto se aproximava o tempo da promessa que Deus fi zera a Abraão, o povo crescia e se multiplicava no Egito. (At 7.2-3, 17, grifo do autor). Embora o Antigo Testamento não tenha um equivalente verbal exato do termo “promessa”, o mesmo conceito aparece em uma constelação de outros termos. A expressão mais antiga da ideia da promessa é dada pela palavra “bênção” (barakah), tantas vezes repetida, recorrente com muita frequência em Gênesis 1—11 (por exemplo, Gn 1.22, 28; 2.3; 5.2; 9.1, 26). O Antigo Testamento, porém, utiliza outro termo além de “bênção”. Foster McCurley, por exemplo, contou mais de trinta situações em que o verbo dibber (geralmente traduzido como “falar”) poderia ser mais bem traduzido como “prometer”.7 Somem-se a esses dois termos o “penhor” divino, seu “juramento” e “descanso”, bem como uma infi nidade de termos e de metáforas que apontam para seu privilégio messiânico, tais como “Semente”, “Rebento”, “Servo”, “Pedra”, “Raiz”, “Leão” — e a lista continua. 6. A promessa feita a Abraão é tratada como evento parcialmente cumprido nos acontecimentos do êxodo e evento ainda a se cumprir integralmente no futuro distante. Foi isso o que Estêvão quis sublinhar em Atos 7.17, uma vez que Deus estava cumprindo o plano feito a Abraão e nos dias do êxodo, e que mais tarde seria chamado de “a promessa”. Paulo se valeu do mesmo método de interpretação, com a diferença de que começou pelo êxodo e se estendeu até os dias do rei Saul e do rei Davi: Depois que tirou Saul, deu-lhes Davi como rei [...] Da descendência deste, conforme a promessa, Deus trouxe a Israel o Salvador, Jesus. (At 13.22, grifo do autor). 7. Foster R. McCurley Jr., “Th e Christian and the Old Testament Promise”, Lutheran Quarterly 22 (1970): 401-410; esp. 402, n. 2. Entre os vários itens prometidos mediante o uso do verbo “falar” ou “prometer”, temos: (1) a terra (Êx 12.25; Dt 9.28; 12.20; 19.8; 27.3; Js 23.5,10); (2) bênção (Dt 1.1; 15.6); (3) multiplicação do povo de Israel (Dt 6.3; 26.10); (4) descanso (Js 22.4; 1Rs 8.56); (5) todas essas boas coisas (Js 23.15); e (6) uma dinastia davídica, um reino e um trono (2Sm 7.28; 1Rs 2.24; 8.20,24-25; 1Cr 17.26; 2Cr 6.15-16; Jr 33.14) e o substantivo hebraico dabar, “palavra”, “promessa” (1Rs 8.56; Sl 105.42). [ 20 ] O plano da promessa de Deus Como esse plano de Deus era entendido como um processo contínuo que percorria a história toda, era necessário destacar cada um dos eventos do desdobrar da história em direção ao Messias, cumprindo-se, ao mesmo tempo, partes da promessa que seguia adiante rumo à sua resolução e cumprimento completos. É por isso que os eventos relacionados ao nascimento de João Batista e de Jesus são tratados tanto como cumprimento do plano da promessa quanto como indicadores futuros do que haveria de sobrevir. O pai de João, Zacarias, viu no advento de uma “salvação poderosa na descendência de seu servo Davi” (i.e., o Messias, Lc 1.69) mais um episódio em que se cumpria o “juramento que [Deus] fez a Abraão, nosso pai” (Lc 1.73). Portanto, a promessa passou por Abraão e Davi e alcançou, nos primórdios da era cristã, a João Batista, precursor do nosso Senhor, e ao próprio Jesus. 7. Os escritores do Novo Testamento não somente dizem que o plano da promessa de Deus permeia todo o Antigo Testamento, como adotam também a fraseologia veterotestamentária como parte da maneira como expressam a revelação de Deus a eles. Outras expressões como “o dia do Senhor”, “os últimos dias”, “o Servo do Senhor”, “meu Filho”, “meu Primogênito”, “meu Mensageiro”, “meu Santo”, o “reino de Deus” e o “Messias” foram paulatinamente acrescentados ao Antigo Testamento tornando-se praticamente rotineiros no vocabulário empregado pelo Novo Testamento. 8. Os autores do Novo Testamento ensinam que a promessa de Deus tem efeito eterno e irrevogável. Não obstante o “endurecimento [que] veio em parte” sobre Israel (Rm 11.25), ainda assim “os dons e os chamados de Deus são irrevogá- veis” (Rm 1.29). Paulo era contundente a esse respeito: Irmãos, eu vos falarei em termos humanos. Embora feito por um homem, ninguém anula um testamento já validado, nem lhe acrescenta coisa alguma. Assim as promessas foram feitas a Abraão e a seu descendente. A Escritura não diz: E a seus descendentes, como se falasse de muitos, mas como quem se refere a um só: E a teu descendente, que é Cristo. E eu afi rmo: A lei, que veio quatrocentos e trinta anos mais tarde, não anula o testamento antes validado por Deus, cancelando a promessa. Pois, se a herança provém da lei, já não provém mais da promessa. Mas foi pela promessa que Deus a concedeu gratuitamente a Abraão. (Gl 3.15-18, grifo do autor). Não menos categórica é a declaração do autor de Hebreus: Quando Deus fez a promessa a Abraão, jurou por si mesmo, visto não ter outro maior por quem jurar [...] Assim Deus, querendo mostrar mais claramente aos herdeiros da promessa a imutabilidade de seu propósito, interveio com juramento, para que nós [as gerações posteriores a Abraão e a seus herdeiros], que nos refugiamos no acesso à esperança proposta,
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